quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Nó d´Edelweiß


Há poucos dias foi dia de São Valentim. A única mensagem que recebi foi retribuída não por mim, mas pelo mundo.

Retribuí a minha mensagem de São Valentim ao colher duas flores para dar para a pessoa em questão, equilibrei ambas no ônibus. Estava eu de pé, e aí vagou uma cadeira, ao lado de uma menininha.

Sentei, a menina olhou para as minhas flores. Dei uma para ela, e ela sorriu de volta. Ficou fazendo bem-me-quer, mal-me-quer com a flor que eu dei. Fez que era um esguicho de perfume, e disse à mãe que estava perfumada. Eu e ela sorrimos, sem dizer nada, a viagem inteira.

E hoje, finda a história da menininha e sua flor, uma moça passa pela janela do meu trabalho, olha para mim, faz uma pausa da caminhada, volta e sorri, e continua andando. Eu retribuo o sorriso, e continuo a trabalhar.

Escuto umas batidas na porta, e quando atendo é a moça da janela. Ela me diz "oi, bom dia... olha, nem conheço voce, mas eu te vi um dia desses no onibus" - ai eu vi que ela tava com uma flor na mão, que nem aquela do dia de São Valentim - "e vi que voce deu uma flor dessa para uma menininha" e eu "é, é!" e ela "pois é, a gente vê assim, era uma menina mais carente, ela ficou olhando a sua flor" e eu "é, eu tava com duas", e ela "é, e ela ficou tão feliz em receber, né?" e eu "é"

"continue assim", disse a moça para mim.


esse tipo de gentileza e atenção, da minha flor, do elogio da moça que eu nem sei o nome, de ela ter percebido meu ato, são essas as coisas que nos levam a viver. São por essas coisas pelas quais vale à pena viver. É pelo nó na garganta que eu senti, ao escrever esse texto e perpetuar o nó que senti de manhã com o reconhecimento da moça.

Vale a vida pela gentileza entre os homens, quase inexistente porque hoje eles se degladiam por não dar flores, não receber sorrisos, não repassar a gentileza que recebem, de um jeito ou de outro, em viagens de ônibus de meios de semana.

Nina, que dá flores a amigos e a desconhecidos.
Na foto, o Edelweiß que proporcionou toda essa história.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Silêncio

Sem chau; Sem recado, nem aviso. Sem telefonema, nem SMS, sem e-mail. Sem devolver as chaves, sem buscar a escova de dente. Sem desculpas, nem justificativas. Sem acusações e motivos. Sem um tapa, sem soco, nem gritos. Sem mentiras, nem verdades. Sem diretas e indiretas. Sem abraços, ou beijos, ou apertos. Sem bom dia, nem palavrão. Sem olhares, ouvidos e bocas. Sem vinganças, mas sem piedade. Sem direitos e deveres. Sem sinais.


Apenas adeus.


Lucas.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cinépoème

La vie est belle:

L´argent de poche,

Les poupées rousses,

L´amour en fuite,

Et après,

Le libertin.


Nina, que dedica esse poema (composto de nomes de filmes) a quem o compreender e aos cinéfilos .

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Inferno

Nos tempos coloniais, Palenque foi o santuário de liberdade que, selva adentro, escondia os escravos negros fugitivos de Cartagena das Índias e das plantações da costa colombiana.

Passaram-se os anos, os séculos. Palenque sobreviveu. Os palenqueiros continuam acreditando que a terra, sua terra, é um corpo, feito de montes, selvas, ares, gentes, que respira pelas árvores e chora pelos arroios. E também seguem acreditando que, no paraíso, são recompensados aqueles que desfrutaram a vida, e no inferno são castigados aqueles que não obedeceram a ordem divina: no inferno ardem, condenados ao fogo eterno, as mulheres frias e os homens frios, que desobedeceram as sagradas vozes que mandam viver com alegria e paixão.

Eduardo Galeano, na Escola do Mundo ao Avesso.

Nina, que espera que ninguém arda no inferno, aqui ou lá.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Técnica metafórica

vou copiar e colar silêncios
e sincronizar a fala dele
no meu silêncio.


nina.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

exaustor

estava cansado porque corria sem ter medido antes a distância do percurso, e, uma vez dada a largada, era obrigatório seguir sem desfalecer naquele ritmo acelerado. estava correndo num fôlego desmedido, e quando pensava não ser possível uma chegada tão longe, as raias da pista indicavam que havia muito chão para correr. talvez estivesse indo para uma sagração muito divina e muito além que recompensasse com a notoriedade necessária a quem não precisa mais que sossego, que recompensasse o sangue o suor a preocupação. corria porque viver não era preciso mas chegar num lugar legal mais ou menos idealizado no mais escondido sonho, aquele que a gente não ousa sequer admitir a si mesmo, no entanto procede em persegui-lo. corria voraz apesar do cansaço até que então tropeçou numa dor e era uma dor tão confusa, dessas que pega a gente de surpresa, tipo quando se bate o cotovelo na quina da estante, o joelho no tampo da mesa. era dessas dores que a gente tem quando corta o pé o dedo, espeta na roca no espinho, fica com medo de tirar o resto de qualquer coisa que ali entrou, mas também não consegue dormir porque lateja, incomoda, lhe obriga a mudar a posição que melhor embala seu sono.

parou por necessidade. o coração não cabia em si. estava sujo, e percebera isto pela primeira vez. sentia, entretanto, os olhos da plateia que acompanhava sua queda. por vício, levantou-se, dessa vez em outro compasso, mais vagaroso. via passar os concorrentes, pensou em seguir na correria, mas a ferida lhe apertava. ouvia vaias? que fosse. o fôlego chegou ao final. parou. quem sabe na próxima corrida tivesse mais sorte.

yuri
(pra ler bem rápido)
(e sem critério)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Poeta mecânico 1.1


Tivesse minha máquina um grito,
Estaria o grito aqui, neste papel
A poesia é criada como havia predito,
Ensinei-lhe a imitar um menestrel

Assim, vejo o mundo mais bonito,
Mais doce do que o mais puro mel,
Pois ela grita por todo o infinito,
Sobre sentimento, fraterno ou infiel

Mas como ela não escreve, nem digita
Não pensa, não sente, só imita,
Este grito... É da máquina ou meu?

Não importa, já não mais omito,
A chave da poesia não é o grito,
Pois o sentimento... É o teu.


Este soneto foi escrito por um software, uma máquina, um algoritmo. O
texto está inerte até que o leitor o interprete e tire daí um
sentimento, emoção ou significado.

O software foi feito com um dicionário de rimas, um thesaurus e
algumas linhas de código utilizando técnicas de inteligência
artificial. Foi alimentado com dezenas de poesias famosas, buscou
formar versos aleatoriamente dentro de um tema e recebeu uma ajudinha
minha na exclusão de versos ruins e na manutenção da coerência.

Criei este programa para lembrar que o sentimento não depende tanto de
quem escreve, mas principalmente de quem lê. Fiz a tal “parada
contraditória, aleatória e dadaísta” de “gerar poesia do computador”.

Henrique Borges, postado por Nina.