sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Rastro indelével.

Quem escreve, escreve muito. Aproveita metade de um sentimento pra fazer uma poesia inteira. Amiúde, uma poesia de sentimentos passageiros, com prazo de validade, daquela que daqui há dois meses será um não-sei-o-que sobre algo-aí. Mas em cada poeta, em cada prosador, há frases feitas. Frases que a vida o ensinou, regências e léxicos que foram aprendidos através dos sentimentos que duraram e que ficaram. Soluções banais para expressar sentimentos raros.  E usadas a todo momento pra mostrar o luto ou a alegria, acabam se tornando essa miscelânea de distinguidos iguais. Uma marca, uma assinatura disfarçada, figurante e protagonista do nosso livro em construção. Todo texto do mesmo autor é, ultimamente, o mesmo texto, reorganizado, ressentido, reamado, reembaralhado. É por isso que quando o fim de meus dias chegarem, embrulharei de herança um único texto, aquele meu último, que de um jeito ou de outro, carregará todos os sentimentos que eu tive na vida. E, até lá, acho que minha poesia está mesmo precisando me demitir como funcionário, os meus textos ficam muito melhor quando estão assim, sem mim.


Lucas.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma parte de nós

23 de setembro. Para você, um dia normal. Vai trabalhar ou estudar. Vai assistir um filme, ler um livro ou jornal. Vai se ocupar de coisas e de alguéns. E vai dormir tranquilo, numa véspera de sexta-feira. Hoje, 23 de setembro, num país chamado Alemanha, uma grande amiga, dos tempos de inocência, perdeu o filho que carregava no ventre. Avisou-me por e-mail. Chorou, em palavras curtas, um luto novo. E mesmo fazendo algo como 4 anos que não nos falávamos, fez questão de me contar a perda de algo tão importante. Houve o tempo que trocamos brincadeiras, que trocamos sorrisos. Houve o momento que me disse, carinhosamente, que batizaria de "Lucas" o seu primeiro filho. E hoje, depois de ler esse aviso, compartilhei do seu sofrimento. Eu perdi uma parte dela e ela perdeu uma parte de mim.



Lucas.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sobre a menor distância entre pontos distintos

Às vezes a distância não é apenas uma questão de ponto de vista. Às vezes, é de ponto de tato. De ponto de olfato. De ponto de audição. É acima de tudo uma privação de todos esses pontos, uns mais, outros menos. E, ainda às vezes, esses pontos são tantos que se tornam retas.

Lucas.


sábado, 11 de setembro de 2010

70% cacau

Leveza temos que ter neste momento que não damos conta de nós mesmos. Não no florescer das lágrimas da maior dor que nos existe, mas no momento de sanidade, a sanidade culpada e vazia que nos encara. Queria me vestir a caráter do meu caráter. Descartar-me de mim mesmo, tirando as peças de roupa que as esperanças alheias me vestem. A completude vazia de uma folha em branco me é, nesse momento. Nego qualquer ethos que minhas palavras respirem. Qualquer saliva seca que meus olhos demonstrem. Não quero mais respirar fragmentos das memórias que me encurralam. Um dia, há de haver, e haverá, a vingança das experiências que trouxeram força e resistência. Um dizer não. Um enfraquecer de tão forte. E quando essas lágrimas finalmente descerem pelo rosto seco por costume, pelos lábios molhados por uma sensação tão nova, mas tão velha, renderei-me a mim mesmo e tudo aquilo que levantou o cimento de minhas veias. Sentirei saudade daquela fragilidade inocente que chamei de lar, que chamei de chão. E darei boas-vindas à amargura do café que resolvi ter como refeição. Desculpe, Mundo meu, se as costas que te virei são tão rudes que parecem reais. A verdade é que a falta da cor que carrego comigo é o preço do esforço que, involuntariamente, assumí.



Lucas.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Embrulho

Um desejo. Dentro de uma caixa, dentro de outra caixa. Em algum depósito no qual jogamos nossas mais queridas esperanças. Esperando pra ser resgatado. Desbotado, rasgado e com remendos. Sorrindo de desespero, abraçado em qualquer imaginário que parecia tão real, mas tão real, que continuou imaginário. Ideia. Tocável e tocante, por si, completo. E por ser completo, sozinho.


Lucas.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ser artificial

Ter um jardim só pra que elogiem as flores. Lutar pelos direitos das minorias e estacionar na vaga de idosos. Usar terno na reunião, pra disfarçar a regata. Rezar pelos pobres e virar a cara quando eles limpam o vidro do carro. Oferecer o doce e torcer pra que não aceitem. O pedaço de hipocrisia que damos, ou vendemos ou alugamos a preços módicos. Que tal andar de carro todo dia sozinho quando se luta pelas causas ambientais? Que tal defender a vida e fabricar estofados de couro? Um suco de limão bem azedo que colocamos açúcar. Uma latinha de refrigerante light. As palmas do parabéns a você. Foi um prazer te conhecer. Também te amo. Te ligo amanhã. Juro que dessa vez eu ligo. Li Dosteivski.

Lucas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"não os tire do mundo, os livre do mal"

pedro cresceu, mas não mudou.

ele viu que vale a pena confiar nas pessoas, apesar de todos os riscos. que não adianta se fechar para o mundo, pois coisas ruins sempre acontecem. e inesperadamente. mas as boas também são assim.
ele também percebeu que nada é imperdoável. que todo mundo erra, mas persistir no erro é canalhice. porém, até os canalhas devem receber o perdão. guardar rancor não faz bem.
ele entendeu que não devemos nos arrepender das escolhas erradas, mas aprender. que as primeiras experiências são apenas isso - primeiras, não últimas. E não é bom se apegar a elas.

pedro já confiava nas pessoas, perdoava, aprendia com as escolhas erradas e não se apegava às primeiras experiências. mas agora ele faz tudo isso por opção. ele não mudou, mas cresceu.

texto de aline e título de nina