segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sobre a menor distância entre pontos distintos

Às vezes a distância não é apenas uma questão de ponto de vista. Às vezes, é de ponto de tato. De ponto de olfato. De ponto de audição. É acima de tudo uma privação de todos esses pontos, uns mais, outros menos. E, ainda às vezes, esses pontos são tantos que se tornam retas.

Lucas.


sábado, 11 de setembro de 2010

70% cacau

Leveza temos que ter neste momento que não damos conta de nós mesmos. Não no florescer das lágrimas da maior dor que nos existe, mas no momento de sanidade, a sanidade culpada e vazia que nos encara. Queria me vestir a caráter do meu caráter. Descartar-me de mim mesmo, tirando as peças de roupa que as esperanças alheias me vestem. A completude vazia de uma folha em branco me é, nesse momento. Nego qualquer ethos que minhas palavras respirem. Qualquer saliva seca que meus olhos demonstrem. Não quero mais respirar fragmentos das memórias que me encurralam. Um dia, há de haver, e haverá, a vingança das experiências que trouxeram força e resistência. Um dizer não. Um enfraquecer de tão forte. E quando essas lágrimas finalmente descerem pelo rosto seco por costume, pelos lábios molhados por uma sensação tão nova, mas tão velha, renderei-me a mim mesmo e tudo aquilo que levantou o cimento de minhas veias. Sentirei saudade daquela fragilidade inocente que chamei de lar, que chamei de chão. E darei boas-vindas à amargura do café que resolvi ter como refeição. Desculpe, Mundo meu, se as costas que te virei são tão rudes que parecem reais. A verdade é que a falta da cor que carrego comigo é o preço do esforço que, involuntariamente, assumí.



Lucas.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Embrulho

Um desejo. Dentro de uma caixa, dentro de outra caixa. Em algum depósito no qual jogamos nossas mais queridas esperanças. Esperando pra ser resgatado. Desbotado, rasgado e com remendos. Sorrindo de desespero, abraçado em qualquer imaginário que parecia tão real, mas tão real, que continuou imaginário. Ideia. Tocável e tocante, por si, completo. E por ser completo, sozinho.


Lucas.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ser artificial

Ter um jardim só pra que elogiem as flores. Lutar pelos direitos das minorias e estacionar na vaga de idosos. Usar terno na reunião, pra disfarçar a regata. Rezar pelos pobres e virar a cara quando eles limpam o vidro do carro. Oferecer o doce e torcer pra que não aceitem. O pedaço de hipocrisia que damos, ou vendemos ou alugamos a preços módicos. Que tal andar de carro todo dia sozinho quando se luta pelas causas ambientais? Que tal defender a vida e fabricar estofados de couro? Um suco de limão bem azedo que colocamos açúcar. Uma latinha de refrigerante light. As palmas do parabéns a você. Foi um prazer te conhecer. Também te amo. Te ligo amanhã. Juro que dessa vez eu ligo. Li Dosteivski.

Lucas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"não os tire do mundo, os livre do mal"

pedro cresceu, mas não mudou.

ele viu que vale a pena confiar nas pessoas, apesar de todos os riscos. que não adianta se fechar para o mundo, pois coisas ruins sempre acontecem. e inesperadamente. mas as boas também são assim.
ele também percebeu que nada é imperdoável. que todo mundo erra, mas persistir no erro é canalhice. porém, até os canalhas devem receber o perdão. guardar rancor não faz bem.
ele entendeu que não devemos nos arrepender das escolhas erradas, mas aprender. que as primeiras experiências são apenas isso - primeiras, não últimas. E não é bom se apegar a elas.

pedro já confiava nas pessoas, perdoava, aprendia com as escolhas erradas e não se apegava às primeiras experiências. mas agora ele faz tudo isso por opção. ele não mudou, mas cresceu.

texto de aline e título de nina

sábado, 30 de janeiro de 2010

Andrea Doria


Deve ser algo exclusivamente meu... Não, não posso ser tão pretensiosa.
Quiçá um sentimento do mundo, guardado em baús enferrujados e somente eu tive coragem de abrir... Tampouco, não seria capaz desta façanha.
Sensação de poucos, muitos ou somente minha, a realidade é que percebo o quão difícil é "dever favores". Chamo de Favores aquelas confidências trocadas por pessoas que veem no outro uma extensão de si mesmos. Funciona da seguinte maneira: eu te conto minhas mazelas, você me conta as suas. Eu guardo seus segredos e você, os meus.Trocamos favores.
Mas, e se algum dia você não se sentir confortável para contar seus pequenos mistérios, ou a outra pessoa passar a não te considerar confiável, o que fazer com os favores de outrora?
As possibilidades são infinitas: jogar pela rua, num cesto de lixo, num navio afundado, num pequeno caderno aberto em cima da mesinha de cabeceira.
Ou esquecer.
Uma pena que a última possibilidade fica apenas no mundo das ideias.

"Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que depois não use o que eu disse contra mim."


[Tali, sobre sua tentativa de autossuficiência em favores. ]

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Balança? Balanço.


"quando eu e aline chegamos no céu, nós viramos pros milagreiros de lá, e competitivas que somos, pedimos uma balança. dissemos 'quando éramos vivas, essa daqui dizia pra mim que eu não podia amar ela mais do que ela a mim. e eu tô aqui, pra medir e provar ela errada.' o anjo achou aquilo muito briga de casal, indicou uma casa tipo 'ferreira costa' angelical, e disse que lá tinha balança de precisão do amor, e que a gente conseguiria comprar e medir. lá fomos eu e aline, já tinhamos apostado lindor - no céu eles crescem em arbustos - que ‘o meu é maior, o meu é maior’, dizíamos. e compramos nossa balança de precisão, e sentamos uma de um lado, outra do outro - a balança era de precisão, mas era old fashioned - e ficamos lá para cima, para baixo, para cima, para baixo. o amor nem de uma nem de outra era maior. o dela crescia, o meu também, e ultrapassava o dela. que ultrapassava o meu, e o meu o dela, pouquinho a pouquinho, naquele sobe e desce de balanças e crescente de amor."